Will da Afro transformou a periferia em negócio e hoje conecta talentos: 'Não quero vencer sozinho'
21/07/2026
(Foto: Reprodução) Will da Afro conecta talentos da periferia: 'Não quero vencer sozinho'
Quando diziam que Perus era o fim de São Paulo, Willian dos Santos, de 30 anos, conhecido nas redes sociais como Will da Afro, preferiu enxergar o bairro como um ponto de partida.
Foi ali, na Zona Noroeste da capital paulista, em uma das periferias do extremo da cidade, que o designer, empreendedor e criador de conteúdo começou a transformar a criatividade em profissão. Primeiro vieram os desenhos, depois a moda, os desfiles, a internet e, por fim, uma missão que hoje guia seu trabalho: abrir caminhos para que outros talentos da periferia também consigam viver da própria arte.
"Se alguém tivesse me mostrado o caminho das pedras lá atrás, teria sido muito mais fácil. Agora eu quero facilitar esse caminho para outras pessoas", diz.
Will da Afro é mais um entrevistado da série Influência de Cria, que está no GloboPop, o novo aplicativo de vídeos curtos verticais da Globo, disponível gratuitamente no seu celular. Lá no app, você pode seguir o palco do "Influência de Cria" para não perder nenhum episódio. Baixe o GloboPop.
🎨 A criação que começou na infância
A relação com a criação começou ainda nas brincadeiras da infância.
Enquanto outras crianças sonhavam com brinquedos, Will passava horas construindo miniaturas de carros alegóricos usando papelão, isopor e materiais recicláveis encontrados em casa. Ao lado dos primos, recriava desfiles de Carnaval e alimentava um sonho.
"Meu sonho era ser carnavalesco."
A educação também teve um papel importante na sua formação. Segundo ele, sua maior ostentação era mostrar o boletim com boas notas para a família.
Depois do ensino médio, fez cursos técnicos e se formou em Design de Interiores. Foi nessa época que começou a questionar a imagem que sempre ouviu sobre o lugar onde cresceu.
Will da Afro, Designer, influenciador e empreendedor de Perus
g1
"Falavam que aqui só tinha coisa ruim. Eu comecei a me perguntar: será mesmo?"
A resposta apareceu conforme passou a pesquisar mais sobre o próprio território.
Ao conhecer artistas, coletivos culturais e iniciativas comunitárias de Perus, começou a enxergar um bairro muito diferente daquele retratado pelos estereótipos: um lugar repleto de talentos, criatividade e potências pouco conhecidas fora da periferia.
O interesse pelo território também o aproximou do trabalho social e da educação, experiências que, segundo ele, ampliaram sua forma de enxergar o mundo e o valor das pessoas e movimentos da própria quebrada.
💃🏻 O desfile que mudou tudo
A virada aconteceu em 2016. Depois de assistir a um desfile da LAB, marca criada por Emicida e Fióti, durante a São Paulo Fashion Week, Will saiu convencido de que queria levar aquela experiência para dentro da periferia.
Impactado pela diversidade de corpos, pessoas negras e artistas ocupando a passarela, organizou em Perus o desfile Afronte, Empodere-se.
"Eu via pessoas pretas incríveis no meu bairro e pensava: elas precisam ocupar esses espaços."
O evento reuniu dezenas de moradores da região e acabou dando origem à AFROPERIFA, marca de moda afro-urbana da periferia que completa cinco anos em 2026.
As peças são desenhadas pelo próprio Will, mas ganharam forma graças à parceria com Dalva Santos, 57 anos, e costureira de Perus que passou a confeccionar as roupas idealizadas por ele.
Segundo Will, encontrar a costureira foi um dos momentos mais importantes da construção da marca.
"Mapear o território e encontrar a Dona Dalva foi decisivo. Ela foi a pessoa que transformou minhas ideias em peças de roupa. Foi ali que eu comecei a me enxergar como estilista."
Will da Afro, empreendedor da AFROPERIFA
Arquivo pessoal
Mais do que uma marca de roupas, o projeto passou a funcionar como uma plataforma criativa que reúne modelos, fotógrafos, videomakers, costureiras e artistas periféricos.
"Eu não vejo a AFROPERIFA apenas como uma marca de roupa. Vejo como uma plataforma criativa."
📹 O vídeo que viralizou
A internet mudou definitivamente sua trajetória durante a pandemia.
Preocupado com as dificuldades enfrentadas pelos pequenos empreendedores da periferia, gravou um vídeo incentivando moradores a comprarem de comerciantes locais.
A campanha Compre do Pequeno viralizou nas redes sociais.
"A quebrada estava passando por um perrengue. A ideia era fortalecer quem precisava: o microempreendedor, o nosso vizinho."
Além de impulsionar a AFROPERIFA, o vídeo fez Will perceber que poderia usar a internet para ampliar o alcance dos projetos desenvolvidos na periferia.
"Foi quando percebi que aquela telinha podia fazer meus projetos chegarem muito mais longe do que eu imaginava."
Desde então, passou a produzir conteúdo, fechou campanhas com grandes marcas e consolidou a carreira como influenciador digital.
Criar oportunidades
Hoje, além da AFROPERIFA, Will criou a agência Da Afro, que conecta artistas, criadores de conteúdo e empreendedores periféricos a empresas e campanhas publicitárias.
Segundo ele, o objetivo não é apenas crescer individualmente, mas ampliar as oportunidades para quem vive nas periferias.
Recentemente, também passou a desenvolver iniciativas voltadas à formação de jovens comunicadores e criadores de conteúdo em Perus, transformando a própria experiência em ferramenta de aprendizado para uma nova geração.
"Eu não quero vencer sozinho. Quero que outras pessoas vençam também."
AFROPERIFA no desfile na Casa de Criadores em 2024
Arquivo pessoal
Apesar da visibilidade conquistada, afirma que continua acreditando que sua principal inspiração está onde tudo começou.
📰 Leia um trecho da entrevista abaixo
Como foi sua infância em Perus?
"Nasci e cresci em Perus. Minha família sempre reforçou muito a importância da educação. Minha maior ostentação era mostrar o boletim para a família. Também tive contato com a arte desde criança. Meu sonho era ser carnavalesco e eu passava horas criando mini carros alegóricos para brincar com meus primos."
Quando você começou a olhar para o território de outra forma?
"Com 21 anos comecei a questionar quando falavam que aqui só tinha coisa ruim. Passei a estudar mais o bairro, entender as vulnerabilidades e também as potências que existiam aqui. Foi aí que nasceu meu interesse social."
Como surgiu a AFROPERIFA?
"Veio depois de um desfile que organizei chamado Afronte, Empodere-se. Eu queria mostrar pessoas pretas, periféricas e artistas do território ocupando espaços de destaque. Depois disso nasceu a AFROPERIFA, que hoje vejo como uma plataforma criativa e não apenas uma marca de roupa."
Como as redes sociais mudaram sua trajetória?
"Na pandemia eu fiz uma campanha chamada Compre do Pequeno. O vídeo viralizou e percebi que podia usar as redes sociais para conectar pessoas aos negócios periféricos. Foi quando entendi o poder da internet."
Você divulga apostas online?
"Já recebi muitos convites, mas não faz sentido para o que acredito. Não vou divulgar algo que pode prejudicar justamente o público que eu tento fortalecer."
Qual é seu principal projeto atualmente?
"A Da Afro, uma agência que conecta artistas e empreendedores periféricos a grandes marcas. Já ajudamos dezenas de profissionais e queremos ampliar muito esse impacto."
Qual mensagem você deixa para quem sonha em viver da criatividade?
"A periferia foi minha escola. Tudo que construí nasceu daqui. Meu conselho é estudar, acreditar no próprio talento e entender que existem caminhos possíveis para transformar criatividade em profissão."