Empresário Saul Klein vira réu em SP por crimes sexuais contra mulheres
14/05/2026
(Foto: Reprodução) Imagem mostrada pelo Fantástico
Reprodução/TV Globo
O Tribunal de Justiça de São Paulo tornou réu o empresário Saul Klein, filho do fundador das Casas Bahia, por quatro crimes, que vão de organização criminosa a exploração sexual de mulheres. Outras sete pessoas também passaram a ser processadas. Ele vendeu sua parte societária na rede varejista em 2009.
O documento da 2ª Vara Criminal de Barueri foi assinado na segunda-feira (11) e segue em segredo de Justiça. Segundo a decisão, Klein passou a ser processado por participação em organização criminosa, favorecimento da prostituição ou de outra forma de exploração sexual de criança, adolescente ou vulnerável, favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual, com agravantes previstas no parágrafo 2º (como emprego de violência, ameaça, fraude ou outras circunstâncias específicas) e tráfico de pessoas envolvendo vítimas menores.
Em nota, o advogado Alberto Zacharias Toron, que representa Klein, informou que "a decisão judicial, em linha com o entendimento já parcialmente adotado pelo próprio Ministério Público, afastou as imputações de estupro, cárcere privado e redução à condição análoga à de escravo".
E emendou: "Em relação às acusações remanescentes, o magistrado destacou a relevância da tese defensiva de que a relação mantida entre as partes era livre e consensual, no contexto de uma dinâmica conhecida como “sugar daddy” e “sugar baby” [que são encontros voluntários com vantagens econômicas], ressalvando que a matéria deverá ser aprofundada ao longo da instrução processual. A defesa permanece confiante de que, ao final do processo, todas as acusações serão integralmente rejeitadas".
Na fase anterior, o Ministério Público tinha se posicionado para que os crimes de estupros contra Klein fossem arquivados, assim como o de perigo de contágio venéreo e também em relação a motoristas investigados.
Segundo a decisão, os depoimentos colhidos nos autos apontaram para a existência de uma “dinâmica reiterada” de recrutamento de mulheres e adolescentes mediante promessas de trabalho em eventos, modelagem e ações promocionais, atuação de intermediárias específicas, condução das vítimas a flats e propriedades ligadas ao investigado, pagamentos em dinheiro, imposição de comportamentos previamente orientados e exploração sexual estruturada em ambiente controlado.
Uma das vítimas relatou, segundo os autos, que frequentou os locais entre 2011 e 2013, e que acreditava participar de “eventos de showroom”. Ela foi recrutada com a ajuda de uma conhecida depois de uma proposta supostamente ligada a uma “agência de eventos” na casa de “um cara rico tipo um príncipe”, descreveu.
Segundo o relato, no ambiente havia controle ambiental e psicológico, a presença de seguranças e dificuldade de deixar o local, bem como medicamentos e bebidas alcoólicas.
“Não podíamos nem mexer no celular. Tínhamos que sorrir o tempo todo e focar 100% da atenção para ele.”
Relembre denúncias contra Saul Klein
Ainda segundo o documento, os relatos eram parecidos ao citar pontos como o recrutamento via redes sociais, promessa de eventos, presença das mesmas coordenadoras e pagamentos vinculados a encontros.
“Os relatos reunidos nos autos, portanto, ultrapassam, em tese, mera notícia isolada ou conjectura abstrata, revelando quadro probatório minimamente consistente quanto à possível existência de estrutura organizada voltada ao aliciamento e exploração sexual de mulheres e adolescentes”, escreveu o juiz.
O que dizem as vítimas
Em 2020, as vítimas contaram ao Fantástico detalhes de festas que teriam sido promovidas pelo empresário. Em conversa com a TV Globo nesta sexta-feira (15), elas comentaram sobre a nova fase do caso na Justiça.
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“Sentimento de alívio e esperança. Transformar o abusador em réu mostra que nossas vozes foram ouvidas e que a Justiça começou a dar uma resposta”, disse uma das mulheres.
“Como vítima, ver esse avanço traz um sentimento de esperança. Esperança de que a Justiça seja feita, de que a verdade seja analisada com responsabilidade”, comentou outra vítima.
“Uma década depois de sofrer com os abusos, parece até que posso ter esperança de novo com a Justiça brasileira”, afirmou uma terceira.
Uma quarta vítima que comentou sobre a situação relatou que sentiu vontade de chorar, mas ao mesmo tempo um alívio. “Uma lembrança do trauma, mas uma sensação de Justiça. Que nós mulheres podemos ter força.”
A advogada Gabriela Manssur, uma das responsáveis pela defesa do grupo com mais de 20 vítimas, não pôde comentar a decisão, mas contou que casos de violência contra mulheres “nunca devem ser recebidos com alegria, mas o recebimento da denúncia representa importante resposta institucional para vítimas que tiveram coragem de romper o silêncio”.
“Há mais de seis anos, ainda como Promotora de Justiça, acompanhei parte dessas mulheres por meio do projeto Justiceiras, que realizou acolhimento jurídico e atendimento psicológico especializado às vítimas. Muitas pessoas acreditavam que esse caso jamais teria consequências. Por isso, esse momento também simboliza algo muito importante: ninguém está acima da lei”.